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O que os números dos bancos dizem sobre os riscos do crédito

Banco do Brasil teve a maior piora da inadimplência no 2T26, enquanto Santander, Bradesco e Itaú também registraram alta nos atrasos; juros elevados mantêm o crédito sob pressão (Por Einar Rivero)

Os balanços do segundo trimestre de 2026 (2T26) confirmaram uma tendência que já vinha se desenhando havia meses: a inadimplência subiu nos quatro maiores bancos de varejo do País. O indicador usado pelo setor para medir essa deterioração é a proporção de créditos com atraso superior a 90 dias em relação ao total de empréstimos concedidos, métrica que orienta o volume de provisões que cada instituição precisa reservar para cobrir perdas. Em todos os quatro bancos, esse número terminou o trimestre mais alto do que estava um ano antes.

O caso mais evidente é o do Banco do Brasil. A inadimplência total da instituição saiu de 4,0% no segundo trimestre de 2025 para 5,6% no mesmo período de 2026, alta de 1,6 ponto percentual em doze meses. Na carteira de pessoa física, o salto foi ainda mais acentuado: de 5,6% para 8,4% no mesmo intervalo, com boa parte do avanço concentrada apenas no último trimestre, quando o indicador passou de 6,8% para 8,4%.


Parte relevante dessa piora está ligada à crise no agronegócio. O crédito rural concedido a pessoas físicas atingiu inadimplência recorde de 7,4% em fevereiro deste ano, contra 2,9% um ano antes, segundo dados do Banco Central. Executivos do banco já reconheceram que produtores rurais em dificuldade financeira, que costumam concentrar toda a vida bancária em uma única instituição, passaram a atrasar também compromissos de varejo, como cartão de crédito. O Banco do Brasil reforçou provisões para cobrir esse risco e endureceu as condições para conceder novo crédito rural, com exigência de mais garantias.

O problema não se limita ao Banco do Brasil nem ao agronegócio. Os outros três grandes bancos privados que divulgaram seus balanços também registraram piora na qualidade do crédito no mesmo período, embora em intensidade menor.

O Santander viu sua inadimplência total subir de 2,6% para 3,3%, alta de 27% em termos relativos. O Bradesco passou de 4,1% para 4,4%. O Itaú Unibanco, o mais estável do grupo, foi de 2,0% para 2,1%.

Mesmo com magnitudes diferentes, a direção é a mesma nos quatro bancos: todos fecharam o segundo trimestre de 2026 com inadimplência superior à de doze meses antes. Isso indica que o fenômeno não decorre apenas de um problema específico de uma carteira ou de um setor, mas de uma pressão mais ampla sobre a capacidade de pagamento de famílias e empresas.

Os dados da Serasa Experian reforçam essa leitura. O Brasil fechou 2025 com o maior número de empresas em recuperação judicial da história da série histórica: 2.466 CNPJs envolvidos em processos de reestruturação, alta de 13% sobre 2024. Foram 977 pedidos de recuperação judicial ao longo do ano, o maior volume desde 2016.

O setor de agropecuária concentrou 30,1% desses pedidos, ante apenas 1,3% em 2012, o que ajuda a explicar por que a crise rural apareceu com tanta força nos balanços de bancos com grande exposição a esse segmento.

Em janeiro de 2026, havia 8,7 milhões de CNPJs negativados no País, com dívida média por empresa de pouco mais de 23 mil reais. A inadimplência costuma anteceder os movimentos de recuperação judicial, o que mantém o mercado em estado de atenção para os próximos meses.

Levantamentos recentes junto a executivos de bancos também indicam que a expectativa não é de melhora rápida: a avaliação predominante é a de que a qualidade do crédito dificilmente vai melhorar nos próximos meses, porque não há previsão clara de quando as taxas de juros vão cair de forma consistente.

A leitura preliminar desses números aponta para uma explicação comum: a permanência da taxa Selic em patamar elevado por um período prolongado. A taxa básica de juros do país está em dois dígitos há mais de quatro anos, e mesmo com o ciclo de cortes iniciado ao longo de 2026, ela segue em 14% ao ano após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de agosto, a quarta redução consecutiva.

A edição mais recente do Boletim Focus indica a expectativa de uma Selic de 13,75% no fim deste ano, patamar ainda restritivo para o crédito. Como o efeito de juros altos sobre a inadimplência costuma ser defasado, o estoque de dívidas contraídas em anos de custo de crédito elevado segue pressionando o caixa de famílias e empresas, mesmo com os juros já em trajetória de queda. Com poucas perspectivas de um corte significativo e rápido da Selic no curto prazo, as condições para um alívio expressivo na inadimplência bancária também parecem limitadas por enquanto.

Esse cenário representa um desafio adicional para investidores que buscam exposição a crédito privado no Brasil. Nos últimos meses, duas empresas até então consideradas sólidas e integrantes do Ibovespa entraram com processos de recuperação extrajudicial: a Raízen (RAIZ4) e o GPA (PCAR3), controlador da rede Pão de Açúcar.

A Raízen apresentou um plano que reorganiza cerca de 65,4 bilhões de reais em dívidas, já homologado pela Justiça de São Paulo, com adesão de mais de 80% dos credores. O plano prevê conversão de parte da dívida em ações, aporte de capital pelos acionistas e segregação dos negócios da companhia.

O GPA, por sua vez, negocia com credores uma reestruturação de cerca de 4,5 bilhões de reais, em meio a compromissos financeiros de curto prazo que superavam a capacidade de caixa da companhia. As duas empresas foram retiradas do Ibovespa e de outros índices da B3 depois de anunciarem os processos, o que reduziu a liquidez de seus papéis e elevou a percepção de risco entre investidores.

Esses casos mostram que a deterioração do crédito não fica restrita a pequenas e médias empresas ou a famílias endividadas. Companhias de grande porte, com histórico de acesso amplo ao mercado de capitais, também têm recorrido a instrumentos de reestruturação de dívida diante do custo de financiamento elevado e da desaceleração da atividade econômica.

Para quem investe em renda fixa privada, isso significa que a análise de crédito precisa levar em conta não apenas o porte ou a reputação histórica do emissor, mas também sua exposição a juros altos e sua capacidade de honrar compromissos em um ambiente de custo de capital que permanece elevado.

A inadimplência não é um fenômeno isolado de um banco ou de um setor específico, mas um reflexo direto de um ciclo de juros altos que já dura mais de quatro anos. Enquanto a Selic não recuar de forma mais consistente, a tendência é que a qualidade do crédito bancário e corporativo continue sob pressão, tanto para pessoas físicas quanto para empresas, incluindo companhias antes vistas como sólidas pelo mercado.

Esse quadro também levanta uma questão sobre o ritmo da política monetária adiante. Se a inadimplência segue subindo mesmo com o início do ciclo de cortes da Selic, o espaço para o Banco Central acelerar essa queda tende a ficar mais estreito, já que juros mais baixos precisam conviver com um cenário fiscal e inflacionário que o próprio Comitê de Política Monetária ainda descreve como sujeito a riscos relevantes.

Para o mercado de crédito, o resultado prático é um período mais longo de seletividade: bancos emprestando com mais cautela, empresas com acesso mais restrito a capital de giro e investidores em renda fixa privada exigindo prêmios de risco mais altos para se expor a emissores fora do topo da cadeia de crédito. Nenhum desses ajustes costuma ser rápido, o que reforça a leitura de que a normalização da inadimplência no Brasil deve ser um processo gradual, e não um evento pontual associado a uma única reunião do Copom. (Fonte: Estadão)

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