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MP da dívida rural é boa ou ruim para a ação do Banco do Brasil? Entenda




O BB informou ao mercado nesta quarta, 22, que já prepara a operacionalização das novas linhas de crédito rural. O próprio banco afirme que ainda não seja possível estimar os efeitos financeiros da MP - foto Paulinho Costa feebpr -

A Medida Provisória (MP) 1.376/2026, que cria linhas de crédito para renegociação de dívidas rurais de produtores afetados por eventos climáticos extremos ou pela queda dos preços agrícolas, pode aliviar uma das principais fontes de preocupação do mercado com o Banco do Brasil (BBAS3): a deterioração da carteira de crédito do agronegócio.

Embora o próprio banco afirme que ainda não seja possível estimar os efeitos financeiros da medida, analistas avaliam que ela tende a reduzir a inadimplência ao longo dos próximos trimestres e contribuir para uma recuperação gradual da instituição financeira.

Nesta quarta-feira, 22, o Banco do Brasil informou ao mercado que já está adotando as providências necessárias para operacionalizar as novas linhas de crédito previstas na MP, publicada no último dia 15 de julho.

A implementação, porém, ainda depende de regulamentação complementar do Conselho Monetário Nacional (CMN) e de ato do Ministério da Fazenda, que definirão as condições da renegociação, incluindo a equalização dos encargos financeiros.

No comunicado, o banco afirmou que a medida "poderá contribuir para o reequilíbrio do fluxo de caixa e a regularização financeira dos produtores rurais", mas ressaltou que, neste momento, "não é possível estimar os impactos da Medida Provisória sobre os indicadores financeiros, patrimoniais e de resultado", já que eles dependerão das regras definitivas e do volume de operações efetivamente renegociadas.

Ação do BB cai menos do que os pares no pregão desta quinta
Após o anúncio, no pregão desta qunta, 23, as ações do Banco do Brasil recuaram 0,71%, movimento que acompanha a realização de lucros no setor bancário e a aversão ao risco nos mercados globais. Ainda assim, o desempenho foi melhor do que o dos demais grandes bancos, que registraram perdas superiores a 1% e pressionavam o Ibovespa, que caiu 0,46%, aos 176.723 pontos.

No acumulado de 2026, porém, os papéis BBAS3 recuam 3,12%.

A melhora relativa dos papéis ocorre em um momento em que investidores acompanham de perto os desdobramentos da crise de crédito no agronegócio, que afetou os resultados do banco nos últimos trimestres.

No balanço do primeiro trimestre, o Banco do Brasil revelou que o aumento da inadimplência rural passou a atingir também a carteira de pessoas físicas, já que muitos produtores concentram toda a sua vida financeira na instituição.

O índice de inadimplência acima de 90 dias saltou de 3,63% para 5,05%, enquanto as provisões para perdas com crédito (PDD) cresceram 85,8%, para R$ 18,9 bilhões, pressionando o retorno sobre patrimônio líquido (ROE), que caiu para 7,3%.

Analistas apontam recuperação gradual e não imediata
Na avaliação do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), a medida representa um passo esperado pelo mercado e tende a reduzir parte da incerteza que cercava a carteira rural do Banco do Brasil.
"A MP é positiva, pois deve proporcionar algum alívio de fluxo de caixa aos tomadores elegíveis e reduzir a incerteza, e o risco moral relacionado, que vinha incentivando alguns produtores a postergar pagamentos à espera de apoio do governo", disse o BTG.

Apesar da análise positiva, o BTG ressalta que os benefícios não serão imediatos. "O impacto sobre o BB dependerá da regulamentação final, dos critérios de elegibilidade e dos volumes renegociados. Em nossa visão, a medida cria uma ponte para uma recuperação gradual, e não uma melhora imediata", afirma.

Na semana passada, em um evento do BTG com os grandes bancos, a administração do BB informou possuir aproximadamente R$ 100 bilhões em empréstimos rurais prorrogados, além de cerca de R$ 30 bilhões em exposições inadimplentes. Ainda não há definição sobre quanto desse montante poderá ser enquadrado no novo programa.

Para o BTG, o segundo trimestre ainda deve refletir os efeitos da deterioração da carteira, com provisões elevadas e perdas de crédito próximas ao limite superior do guidance. Um alívio mais significativo nos resultados seria esperado apenas a partir do quarto trimestre, quando a redução na formação de provisões e a retomada do reconhecimento de juros sobre operações renegociadas poderiam começar a aparecer.

Alívio para o agro e para o banco
Na avaliação de Ian Lopes, economista da Valor Investimentos, a nova MP tende a beneficiar tanto os produtores quanto o Banco do Brasil.

"O que vai segurar o Banco do Brasil é justamente isso. A gente viu um problema de inadimplência alta do agro e espera que, com essa nova MP, essas linhas de crédito sejam renegociadas, dando um fôlego financeiro tanto para o agro quanto para o próprio Banco do Brasil. Isso é positivo para o banco, dado que tende a diminuir a inadimplência", afirma.

Para Júlio Moretti, CEO da NEOT, empresa especializada em gestão de processos de insolvência e recuperação judicial, a percepção mais favorável em relação ao Banco do Brasil também decorre da posição estratégica da instituição no financiamento do agronegócio.

Segundo o executivo, o banco responde por cerca de metade do crédito destinado ao setor e vem adotando uma postura mais conservadora nas renegociações.

"O Banco do Brasil começa a exigir um volume maior de garantias reais e, ao mesmo tempo, o governo amplia os incentivos ao produtor rural. Quando você soma esses fatores, aumenta a percepção de que esses produtores terão melhores condições de pagamento, o que melhora também a percepção do mercado sobre o Banco do Brasil", afirma.

Mercado ainda evita antecipar efeitos
Nem todos os especialistas, porém, atribuem o desempenho relativamente melhor das ações nesta quinta ao anúncio da MP. Para Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, a menor queda dos papéis nesta sessão está mais relacionada ao valuation descontado da ação do que a uma reprecificação provocada pela medida.

"Acho que ainda não. O próprio banco diz que não tem como estimar qual será o impacto da MP na renegociação das dívidas. O fato de estar caindo menos é porque o valuation do banco realmente estava muito descontado. Itaú e Bradesco já haviam recuperado parte das perdas, enquanto o Banco do Brasil tinha ficado para trás", afirma.

Ainda assim, Pletes considera que a medida tende a ser favorável caso as renegociações avancem. "Se enxergarmos uma massa relevante de refinanciamentos, tende a ser positiva porque o banco realmente está com um problema grande na carteira de crédito do agronegócio. O efeito dependerá de as renegociações acontecerem e de os produtores cumprirem os requisitos do programa", diz. (Fonte: Exame)

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