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Direito de greve na OIT: a histórica decisão da Corte Internacional de Justiça



Em artigo, o jurista e professor Sandro Lunard Nicoladeli analisa o parecer consultivo classificado como uma vitória civilizatória de magnitude global à classe trabalhadora

Em um cenário de intensas disputas sobre as garantias fundamentais da classe trabalhadora, o debate sobre o direito de greve ganhou novos e decisivos contornos jurídicos no plano internacional. Uma recente e histórica manifestação da Corte Internacional de Justiça (CIJ) redefiniu o equilíbrio de forças entre capital e trabalho, impondo um freio definitivo às tentativas globais de flexibilização e criminalização de direitos promovidas por setores patronais.

A relevância global desse parecer da CIJ dialoga diretamente com a realidade enfrentada pelos(as) educadores(as) paranaenses, frequentemente alvos de pesadas investidas jurídicas e atos de criminalização por parte do governo estadual e de prefeituras. Exemplo dramático dessa ofensiva ocorreu durante a última greve da categoria, em 2024, quando a presidenta da APP-Sindicato, professora Walkiria Mazeto, foi intimada pela Justiça com uma ordem de prisão sob a alegação de descumprimento de medidas restritivas ao movimento – uma nítida tentativa de sufocar a resistência sindical.

Para analisar os impactos políticos e os reflexos práticos dessa importante decisão na governança mundial do trabalho e na realidade sindical brasileira, o jurista Sandro Lunard Nicoladeli refletiu sobre a decisão no seu artigo. Defensor dos direitos da classe trabalhadora, Sandro Nicoladeli é professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro do Comitê de Liberdade Sindical da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Confira o artigo na íntegra abaixo:

Direito de greve na OIT: a histórica decisão da CIJ


Em recente e histórico pronunciamento, a Corte Internacional de Justiça (CIJ) pôs fim a um imbróglio jurídico que se arrastava há quase 15 anos nos bastidores da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Por 10 votos a 4, o principal órgão judicial das Nações Unidas emitiu um parecer consultivo declarando que o direito de greve é, fundamentalmente, protegido pela Convenção n.º 87 da OIT, que trata da liberdade sindical.

O desfecho do julgamento representa uma vitória civilizatória de magnitude global para a classe trabalhadora, mas também expõe as profundas fraturas na governança internacional do trabalho e no próprio modelo de tripartismo.

A disputa ganhou contornos de crise institucional em 2012. Naquela ocasião, o Grupo dos Empregadores rompeu o consenso histórico e passou a contestar a jurisprudência dos órgãos de supervisão da OIT — como o Comitê de Peritos (CEACR) e o Comitê de Liberdade Sindical (CLS) —, sob o argumento de que a Convenção n.º 87, redigida em 1948, não faz menção expressa à palavra “greve”. O bloqueio patronal paralisou o sistema de aplicação de normas por anos, funcionando como um verdadeiro poder de veto político.

Sem consenso entre o sistema de governança tripartite e seus organismos de controle, o Conselho de Administração da OIT ativou o artigo 37.1 da sua Constituição e formulou uma pergunta estritamente binária à CIJ: a Convenção n.º 87 protege ou não o direito de greve?

Ao analisar a matéria, a maioria dos juízes da Haia rejeitou a visão originalista estrita da bancada empresarial. Adotando uma interpretação evolutiva e teleológica dos tratados, a Corte concluiu que o termo “atividades”, previsto no artigo 3.º da Convenção, abarca a interrupção temporária do trabalho. Para o tribunal, a liberdade sindical seria uma “casca vazia” sem o seu principal mecanismo de pressão material.

O julgamento, contudo, não foi unânime. O elevado número de dissidências formais chamou a atenção. Juízes como Tomka alinharam-se aos argumentos historicistas, criticando a maioria por “ler” no texto um direito que os redatores originais decidiram deixar de fora em 1948 por falta de consenso na época, alertando para os riscos do ativismo judicial internacional. Em contrapartida, no campo progressista, a Juíza Cleveland ventilou que o direito de greve já atingiu o patamar de Direito Internacional Costumeiro.

Os reflexos práticos dessa decisão ultrapassam os debates teóricos e impactam diretamente o comércio global. A chancela da CIJ fornece uma base jurídica sólida para a fiscalização de cláusulas sociais e laborais em tratados de livre comércio, servindo de barreira contra o dumping social nas cadeias globais de suprimento.

Para o Brasil, o cenário é juridicamente curioso e emblemático. A Constituição de 1988 já assegura o direito de greve de forma ampla em seu artigo 9.º. No entanto, o país nunca ratificou a Convenção n.º 87 da OIT, devido à opção histórica de manutenção do modelo de unicidade sindical.

Ainda assim, a posição governamental brasileira — impulsionada por juristas laboralistas e pelas centrais sindicais — sempre foi de alinhamento irrestrito à tese dos trabalhadores nesta questão, inicialmente, em Genebra e, posteriormente, na Corte em Haia. O parecer da CIJ blinda o ordenamento jurídico nacional, impedindo que futuras tentativas de flexibilização legislativa doméstica tentem esvaziar a greve sob o pretexto de um suposto desalinhamento com os padrões internacionais.

Embora o parecer consultivo possua uma natureza técnica não-vinculante, a força política e moral do veredito da CIJ redefine as regras do jogo. Resta saber se o Grupo dos Empregadores honrará o pronunciamento da Haia ou se o tripartismo da OIT continuará refém de impasses políticos. Por ora, prevalece o entendimento de que a justiça social e a liberdade de associação não subsistem sem a salvaguarda eficaz do direito de greve.  

* Sandro Lunard Nicoladeli é doutor em Direito e integrante do Comitê de Liberdade Sindical da Organização Internacional do Trabalho (OIT), além de professor e especialista em liberdade sindical e normas internacionais do trabalho.

* O presente artigo foi elaborado em caráter exclusivamente acadêmico. As opiniões, interpretações e conclusões aqui expostas são de responsabilidade exclusiva do autor e não representam posições oficiais da Organização Internacional do Trabalho (OIT) ou de seus organismos de controle. (Fonte: APP Sindicato)

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