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Por que jovens debocham da CLT nas redes sociais, desprezam direitos e dizem que é melhor ser PJ

Nova geração reclama de falta de flexibilidade e oportunidades com carteira de trabalho, mas especialista diz que eles desconhecem direitos (Por Jayanne Rodrigues) - foto Paulinho Costa feebpr -

Ser CLT virou sinônimo de fracasso? Jovens debocham nas redes; saiba o que está por trás disso. Especialistas mencionam "desencanto" com o regime de trabalho e alertam para deturpação dos discursos nas redes.

“Tenho medo de ser CLT.” A frase inicia dezenas de relatos que se multiplicam nas redes sociais, principalmente de jovens que ainda não ingressaram no mercado de trabalho. Em muitos vídeos, as pessoas questionam se vale a pena fazer longos trajetos no transporte público para ganhar salários considerados baixos. Também há reclamações sobre falta de flexibilidade, autonomia e oportunidades de crescer.

O movimento é polêmico e acendeu o debate sobre o que está por trás da crítica ao regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), criada em 1943 durante o governo Getúlio Vargas com o objetivo de unificar a legislação trabalhista brasileira.

“Você já parou para pensar que trabalha de segunda a sexta-feira, o faturamento da empresa dobra e você continua recebendo o mesmo salário e quem está enriquecendo é o seu chefe?”, provoca a estudante Maju Abreu em um vídeo publicado no TikTok.

Nos comentários da publicação, as opiniões divergem. “Não gosto de CLT porque na maioria dos lugares em que trabalhei fui tratada com estupidez e grosseria”, escreveu uma usuária.

Outra disse: “Pior que hoje tem que ter sorte de conseguir CLT, o subemprego é pior.”

Já uma terceira comentou: “Sonhar é preciso, mas viver a realidade também. Hoje a maioria trabalha com carteira assinada, nem todo mundo quer ser empreendedor.”

Idealização de novas carreiras, como influenciador digital
Para Maria José Tonelli, professora do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da Fundação Getulio Vargas (FGV), há uma fantasia na sociedade de que ao seguir outros caminhos, como trabalhar como influencer, é possível ganhar mais dinheiro em menos tempo.

A professora explica que esse discurso se contrapõe ao percurso tradicional dentro de uma empresa, que costuma exigir anos de trabalho para alcançar reconhecimento e nem sempre é garantia de uma carreira bem-sucedida.

"Existia uma promessa de carreira de que com o seu esforço seria possível galgar posições maiores, o que significava prestígio e maior acesso a recursos financeiros. Esse modelo esteve presente nas grandes organizações com um grande número de pessoas por mais de 40 anos."
Maria José Tonelli, professora do Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da Fundação Getúlio Vargas (FGV)

As primeiras rachaduras no tradicional sistema de carreira, estruturado após a Segunda Guerra Mundial, começaram a surgir nos anos 90.

Naquele período, a economia global encarou demissões em massa, e a ideia de que o emprego duraria a vida toda passou a perder o sentido. Por isso, apesar do hype atual contra a CLT nas redes, a professora avalia que o “desencanto” com o modelo formal de trabalho se arrasta há décadas.

No entanto, alguns fatores intensificaram o cenário de instabilidade. Tonelli sugere que a pandemia escancarou a exaustão e os episódios de sofrimento mental no trabalho, além de ter acentuado a volatilidade nas empresas.

Jovens não compreendem os direitos da CLT, diz especialista
Na perspectiva do professor da FEA-USP e pesquisador em relações de trabalho Arnaldo Mazzei, a situação foi agravada antes mesmo do contexto pandêmico, com a reforma trabalhista de 2017. “Desestruturou completamente a CLT, permitindo toda e qualquer forma de contratação precária de trabalho.“

O apelo das redes sociais, de acordo com Mazzei, seduz mais os jovens que buscam flexibilidade. No entanto, eles não compreendem os direitos envolvidos em um contrato CLT, como férias, licença-maternidade, 13º salário e fundo de garantia, diz.

O professor atribui a viralização desse discurso a campanhas articuladas por setores conservadores com atuação digital.

"Uma parte significativa das elites está vendendo uma ideia de que é melhor ter liberdade e autonomia do que ficar aprisionado por uma legislação que custa caro para as empresas e para o trabalhador. É uma falácia."

Arnaldo Mazzei Nogueira, professor associado da FEA-USP, pesquisador em relações de trabalho e participante do Instituto de Estudos Avançados da USP, no projeto Observatório do Mundo do Trabalho e da Classe Trabalhadora no Brasil

Na contramão do boom de críticas, pessoas comuns e figuras públicas endossam o coro em defesa da CLT. O ex-BBB e economista Gil do Vigor publicou um vídeo comentando que, embora ser “PJ (pessoa jurídica) não seja ruim”, a CLT é uma forma de resguardar o trabalhador. (Fonte: Estadão)

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